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sábado, 22 de novembro de 2014

As Transposições do Rio São Francisco na Crônica de uma Bióloga Encantada

“Ter um destino é não caber no berço onde o corpo nasceu, é transpor as fronteiras uma a uma e morrer sem nenhuma” 
(Miguel Torga).

O termo transposição pode ser definido como o ato ou efeito de ascender, escalar, sobrelevar. Em um sentido metafórico, pode ser colocado como a superação dos obstáculos, onde o personagem – herói ou vilão – consegue transpor-se para um novo patamar (interno ou externo, material ou imaterial): perfeita figura de linguagem para todos os tipos de saltos quantitativos/qualitativos. Metáfora, curiosamente, pode ser definida como a transposição do sentido de uma determinada palavra para outra, sentido este que, inicialmente, não lhe era pertencente – coisa relevante neste texto.

Mas deixemos de lado outros prolegômenos definitórios e vamos logo ao que interessa: a protagonista desta história é Juliana (Oliveira, J.S.B.). Ela nasceu no Mato Grosso do Sul e veio aqui pro Paraná estudar na Faculdade. Bióloga por vocação, logo que se viu com o canudo diploma na mão, aventurou-se em um mestrado na Agronomia; na agro – sem querer ser diferente mas já sendo (como sempre...) – escolheu um tema de estudo para sua dissertação tão sustentável quanto controverso: Homeopatia em vegetais! E antes que falem: sim! Ela obteve resultados positivos (não infinitesimais), parte recém publicados no paper Activation of biochemical defense mechanisms in bean plants by homeopathic preparations”.

Depois de defender seu mestrado com doses cavalares de apresentação, agora ela quer ser doutora; e para variar (adivinha!) sua tese também não tem uma hipótese de estudo muito comum não, versando sobre o uso de Elementos Terras Raras na agricultura. Controversa e corajosa, essa menina!

Uma bela morena, diga-se de passagem, cheia de vida. Pesquisadora, atleta e pianista!

E minha garota, que besta é que não sou!

Quer saber mais sobre as revolucionárias pesquisas desta jovem cientista? Vide Currículo Lattes, claro!

Mas como não só de ciência que se vive uma vida, de vez em quando dá tempo da gente bater um papinho, e por estes momentos sei bem que ela não gosta de política – demonstrando certa irritabilidade indisfarçável ao falar no assunto; também não concorda com muitos programas governamentais, e com certeza se posicionaria na oposição, se política fosse. Dificilmente conversamos estes assuntos (questão de estratégico bom senso...).

Sobre o Nordeste, estava impresso em seu cérebro o que mora na cabeça da maioria dos brasileiros: a imagem da seca, da desolação, da subnutrição e da pobreza; dos coronéis, da indústria da seca, do voto de cabresto – construída ao longo dos séculos por uma história de opressão por parte da natureza e dos homens – em uma região onde a escassez seria, além de água, alimentos e recursos, também de tecnologia, investimentos, cultura e “vergonha na cara” por parte dos donos do poder.

Quanto à polêmica obra de combate (ou de convivência) com a seca denominada “Transposição do Rio São Francisco” (TRSF), até recentemente sua impressão era de que se tratava de mais uma obra faraônica de cunho político/eleitoreiro do Governo Federal, totalmente desvinculada da realidade e cujos recursos poderiam ser utilizado de forma mais eficiente em outros projetos. Também estava em sua mente a “certeza” de que a obra não obteria uma aprovação de uma área técnica especializada séria, e que acabaria se configurando, regionalmente, como mais uma fonte de enriquecimento de “coronéis” e moeda de compra de votos.

Como bióloga, somava-se às questões citadas outra que era (como não podia deixar, por coerência, de ser) uma das suas maiores preocupações: a ecológica! Estaria havendo um cuidado mínimo quanto ao impacto ambiental? Também questionava, academicamente centrada como é: foram feitas parcerias com universidades? Finalizou, com ênfase e consciência social: privilegiar-se-ia, acima de tudo, o benefício coletivo? (Não é um primor?).

Mas em uma recente viagem com objetivos acadêmicos até a fonte dos acontecimentos – onde correm as integradoras águas do Velho Chico – ela se viu depositária de muitas informações privilegiadas, o que a forçou a mudar muito pontos de vista pessoais sobre este tema. Contando como foi esta aventura, ela me trouxe preciosos elementos e ajudou a consolidar e colapsar outros pontos, e espero que, com este texto, novas percepções sejam levadas também aos leitores do mesmo.
Esta viagem foi realizada no primeiro semestre de 2014 onde, em uma reunião para apresentação de dados na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), palestrar Juliana foi: deixou pra trás todo o marasmo do Paraná, comprou uma passagem e foi direto a Petrolina, Pernambuco. E assim nossa heroína sentiu-se, repentinamente, como verdadeira personagem de um romance de Graciliano Ramos em épicas histórias nas veredas do grande Sertão.

Mas, antes de tudo, viveu seus dramas de estudante-profissional-cientista: apresentou, assistiu, ensinou, aprendeu; cumpriu com sucesso sua missão acadêmica no projeto que, à época, participava: o SISBIOTA Brasil - Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade – "bioprospecção de fungos sapróbios no PPBIO/ semi-árido nordestino para o controle de doenças infecciosas em plantas: indução de resistência" (ufa!).

Apresentação de resultados da pesquisadora ( e minha namorada nas horas vagas) Oliveira, J.S.B., na UNIVASF (Petrolina, PE), dentro do programa SISBIOTA Brasil.

Finalizada com êxito sua missão – mas ainda na condição de profissional/cientista – impressionou-se com a universidade: equipamentos de ponta (“ow! Novinhos em folha”, disse), laboratórios muito bem organizados, equipe de pesquisadores ativos, entusiasmados e em pleno desempenho de suas funções “pesquisísticas”. Em suma, muita grana rolando, bem aplicada na montagem dos laboratórios, na formação de um corpo acadêmico forte e também na consecução de projetos, muitos direcionados ao desenvolvimento e preservação do sertão. Foi o que ela viu e, eufórica, retornando me contou (depois da matada épica de saudades, claro!).

E pelo que se sabe este não é um fato isolado! Tanto que, neste ambiente acadêmico que estamos inseridos, a grande fonte de empregos – por conta das novas universidades que estão sendo abertas ou pela ampliação do número de vagas – corre à boca miúda: aumenta conforme subimos em direção ao Norte! E já vou avisando: ela também pretende brigar por sua vaga quando, num futuro próximo, for a “Doutora Juliana” (chique no último!), sobrando, para todos mais, n-1 vagas, capiche?

Esta foi a primeira transposição pessoal da nossa protagonista:

Da região seca não só de água, mas também de saber, para um surpreendente Nordeste irrigado de conhecimento e ciência.

Mas depois, Juliana Batista, “animada pra guerra”, foi lá fora excursionar – no campus e no campo (pois boba ela não é!). Tomada como sempre por seu característico sentido de apreciação turística e curiosidade irrequieta, procurou fazer muitas perguntas e participar o máximo possível – assumida amante das interações interpessoais que é – do que é típico e pitoresco da região e do seu povo.

Ju interagindo (gente, duas dela na janela!).

No vale, virou encantada, e pode coletar novos dados que mudaram mais de seus pontos de vista: viu um Nordeste de paisagens incríveis (sim, fora do litoral!); já do avião havia se impressionado com um verde inesperado. Nos caminhos sertanejos que passou, se deparou – entre tantas coisas que não cabem aqui – com os tais jegues trocados por motos por seus donos (recém ascendidos à classe média) que, abandonados, vagam pelo sertão, tema de várias matérias da mídia. Mas uma das experiências que mais a impressionou foi comer uvas dulcíssimas direto no pé debaixo de pomares gigantescos, capazes de produzir duas vezes por ano; além disso, com manejo e novas variedades, o Vale poderá vir a produzir, brevemente, uvas o ano todo! Soube também das pesquisas de desenvolvimento de novos produtos com esta paradisíaca fruta, como a produção de suco de uva (verdadeiramente) 100% integral e vinhos orgânicos, para a crescente indústria de processamento de alimentos da região.

Viu também muitas plantações de manga, goiaba, seriguela, abacaxi e outras mais, todas com saúde e produção excepcionais, proporcionadas por incentivos, pesquisa científica, irrigação franciscana e muito sol tropical!

Foto tirada em 26-03-2014, em Juazeiro (BA), mostrando belas paisagens...

Só não gostou de saber que a maior parte do que é produzido é exportado, mas reconheceu a riqueza que isso traz para a região.

Esta foi sua segunda transposição pessoal:

Da imagem estéril, amarga e cinza da terra seca, para um quadro mais fértil, doce e verde da terra molhada.

Mas as surpresas não pararam por aí! Ela teve a ímpar oportunidade de conversar com pesquisadores diretamente envolvidos com o projeto da TRSF, e pôde sentir o amor e entusiasmo que eles manifestavam por estar participando de tal empreitada. Claramente, essa foi a parte que mais a marcou e inspirou.

O professor que recebeu os alunos e coordena parte do projeto foi um destes. Era tanto entusiasmo, paixão e volição, que ela e outros tiveram a impressão de que este professor-pesquisador-coordenador, mesmo sem salário, continuaria trabalhando para dar seguimento ao que acredita; eles puderam enxergar olhos emocionados, quase lacrimejantes, neste mestre-pesquisador, ao contar detalhes do projeto que trabalha. Obteve a informação dos pesquisadores de que havia, sim, todo um cuidado na prospecção e no manejo quanto à fauna, flora, geologia e todo acervo biológico, com um forte estudo de impacto – ambiental e humano – iniciado em tempo para ser efetivo.

Em tempo: neste projeto, um bilhão de reais foi destinado para a área ambiental.

Ela contou também que a UNIVASF está absorvendo os próprios recém formados e que trabalharam desde o início com a transposição, garantindo um comprometimento excepcional.

Conversou também com uma promotora que fazia a conciliação com os desapropriados, que disse acreditar bastante no projeto, no sentido deste vir a verdadeiramente beneficiar a população. Em outras conversas, também trouxe a impressão de que o povo local estava confiante, acreditando que realmente a transposição era algo bom e viria, mesmo com atrasos, a melhorar a vida do sertão.

Depois de ela me contar t-u-d-i-n-h-o, nos mínimos detalhes, até se sentir completamente satisfeita (muitas e muitas... horas depois), pedi para July fazer uma síntese dos motivos para ela, agora, acreditar no projeto. Respondeu-me que, se antes achava que este era um projeto mais político do que tudo, nesta experiência descobriu que este possui, em sua base, além do forte estudo de impacto, um corpo técnico/executor comprometido, e este, segundo ela, seria a chave de tudo: COMPROMETIMENTO (ênfase dela).

Enfim, esta experiência, além de lhe trazer uma esperança justificada de que o projeto mude realmente a vida de milhões de pessoas, de tão rica para ela não tem o que pague: "Ow (lê-se 'ôul')! Foi maravilhoso sentir tanta paixão", confessou-me, expressando todo seu encantamento.

Esta foi a terceira e última transposição Juliana:

Da pré-concepção de ser a TRSF mais uma obra seca de potencial e caráter social, para a certeza de um projeto que, no mínimo, convence e entusiasma brasileiros altamente capacitados e cheios de amor por seu país, sua gente, e por seu trabalho transpositor.

Essa viagem, para nós, foi uma preciosa fonte de elementos relevantes, especialmente por se encontrarem fora do contexto das guerras política e midiática que praguejaram o Brasil da copa e das eleições. Estas informações, pinçadas honestamente “de dentro”, fazem (a meu ver) com que este texto tenha sua relevância e sua verdade e, assim, um porquê de vir a existir – uma pequena contribuição, mas ao menos estas experiências não morrem aqui: transponho-as do cárcere das lembranças e da efemeridade da palavra falada para a fisicalidade da linguagem escrita, apresentada na vitrine grande da websfera.

Infelizmente, o que se vê no Brasil desde sempre é a busca do benefício pessoal (do seu grupo político, de sua empresa, de sua classe), sem pensar – como bem disse Juliana – no benefício coletivo.

Com a reflexão derivada destes dados, enxergo que quando uma obra com bases técnicas firmes – segundo muitas vozes que se podem depositar valor – sonhada desde o império (1877), tentada por todos os governos depois da ditadura e que, indubitavelmente, trará maior segurança hídrica, resiliência socioeconômica, desenvolvimento e progresso para milhões de pessoas, é colocada dentro desta dinâmica contrária, corre-se o risco de matar a esperança e o futuro de toda essa massa humana que seria beneficiada; mas não só: destrói-se também um fantástico trabalho feito a inúmeras mãos, de pessoas que trabalham ali com paixão porque acreditam de verdade e que, com talento e espírito inquebrantável, não medem esforços para transpor do papel para a realidade uma obra com potencial de mudar o país e ficar na história.

São estes laboradores incansáveis que sentem – diretamente do olho do furacão – esta antienergia, mas não param de trabalhar em prol do que consideram importante e relevante, pois são movidos pela força vital que emana desta terra, para eles repleta de possibilidades inexploradas e de humanos merecedores de progredir sustentavelmente. Essa verdade, fato consumado, não pode ser refutada.

O que se podem inferir destes fatos? Tudo isso mostra que, indubitavelmente, existem outras transposições tão necessárias quanto esta debatida aqui (respeitando as opiniões diversas movidas por intenções positivas e com embasadas argumentações).

Transpor-se, enfim, para um novo patamar – mais elevado e mais bonito –  de Brasil e de brasileiros.

Espero que, juntos – a portadora da boa nova, Juliana, e eu, o escrevinhador desse causo – estejamos ajudando a trazer elementos de capacidade crítica através de informações privilegiadas de quem trabalha diretamente com o projeto e acredita no valor do que faz. Nosso paradigma norteador, desta maneira, é aquilo que apreendemos destas conversas “in loco”, e a base técnico-científica se sustenta nas revisões da literatura.

Este estudo me fez crer que o sonho do fim das vidas secas “a maior” virá quando for materializada aquilo que chamo de a “quadra redentora do Nordeste": revitalização, gestão, retenção e transposição, elevando o povo sertanejo para uma resiliência além da sobrevivência pura e simples, um salto para um novo patamar onde exista estabilidade social e econômica e seja, assim, possível crescer sustentavelmente e desenvolver-se em todos os sentidos.

Em suma, neste pequeno espaço-tempo aferido pôde-se ver e sentir que, mais que contratados para realizar um serviço, os trabalhadores da obra – de operários a cientistas – se vêem como portadores de uma missão histórica. Indubitavelmente, se fosse outro modelo de projeto leva-água para o sertão, eles estariam trabalhando com o mesmo amor e afinco para fazer funcionar, se nele acreditassem – simplesmente porque faz parte de suas naturezas.

Neste sentido, este texto poderia ser também, tranquilamente, intitulado como:

"Uma crônica sobre admiráveis brasileiros entusiasmados por participar da transposição de todas as secas”.

Nossas reverências – minhas e da protagonista que teve seu final feliz – a estes e a todos batalhadores que trazem consigo tais valores. Que eles não esmoreçam e continuem sonhando, se qualificando, trabalhando e crescendo para ajudar nesta empreitada de todos nós, brasileiros, para transpor o gigante adormecido em sustentável, dinâmico e justo colosso – porque os obstáculos são muitos e do tipo grandões.

E um beijo na Juliana! ;)

EdiVal
2014.

sábado, 11 de outubro de 2014

A transposição do Rio São Francisco e as 500.000 Vidas Perdidas de 1887: Um Olhar Sobre a Seca, a Resiliência e a Redenção do Nordeste

A terra apresenta regiões onde o clima e o sistema de chuvas são bem característicos e marcados, levando a elas uma certa homogeneidade, caracterizando os biomas.

No nordeste do Brasil, por exemplo, floresce a caatinga: o único bioma exclusivamente brasileiro, apresentando um clima – denominado semiárido – que divide o ano em "estação das chuvas" e "estação das secas". Esta última – melhor denominada de estiagem – não é, absolutamente, a famosa "seca do Sertão", responsável pelo quadro desolador que vemos desde sempre nos noticiários.


A Caatinga
(imagem em http://www.mma.gov.br/biomas/caatinga)
A verdadeira seca – longa e devastadora – se dá quando a estiagem invade a estação das águas, por um ou vários anos, com baixa ou elevada intensidade, abrangendo apenas parte do sertão ou extrapolando-o. É chamada tecnicamente de seca climatológica, recorrente na caatinga há muitos séculos.

Dentro desta dinâmica agressiva, espécies evoluem ou são extintas, se adaptam ou morrem. Indubitavelmente, um lugar que apresenta estas características depende de seres altamente resilientes e adaptados para seguir habitado.

O sertão e os sertanejos há muito sentem na pele esta realidade, e tem sobrevivido: periodicamente, com a seca murcham e com as chuvas renascem, vigorosos e produtivos, devido à força de uma genética selecionada, à persistência e ao conhecimento acumulado dos que amam seu chão e na sua terra querem ficar.

Por isso se diz que o sertanejo é um bravo; por estes motivos, o sertão sempre enche de esperança os seus de que tudo vai, sempre, melhorar.

Não há como refutar Euclides da Cunha: a vida na caatinga é mesmo para os fortes!

Mesmo assim, há que se dizer: a história registra momentos difíceis e nada poéticos.

O mais dramático destes momentos foi a grande seca de 1887-89, onde se registrou a morte de inacreditáveis 500.000 pessoas, e a soma de 2 milhões de flagelados. Um recenseamento feito logo após estes dias catastróficos (1890), mostrou que o Brasil possuía uma população total de 14,3 milhões de pessoas. Portanto, mais de 3% dos brasileiros da época pereceram nesta seca, o que corresponderia hoje, proporcionalmente, a quase 7 milhões de mortes em agonia!

É possível imaginar tamanha catástrofe?

Desde aqueles dias, se registraram muitas outras secas marcantes na história nordestinaContudo, quero chamar a atenção particularmente para o período de 1979 / 1984, em que ocorreu a mais longa e abrangente seca da história documentada do Sertão, onde, segundo dados da Sudene, se registrou, novamente,  um número inacreditável de mortos: 3,5 milhões de pessoas – especialmente crianças – devido não só à fome e à sede agudas, mas também à doenças advindas da desnutrição. 
Vale o destaque: 


TRÊS MILHÕES E QUINHENTOS MIL SERTANEJOS MORTOS! 

Como se vê, quase um século depois o quadro das vidas secas ainda predominou no cenário sertanejo. 

Se esta foi a parte mais triste desta tragédia, existe uma mais sombria; a tristeza se transforma em revolta com o fato de que o dinheiro que o Governo Federal enviava para auxílio dos flagelados desta tragédia praticamente desaparecia no caminho, indo irrigar bolsos malévolos e não chegando aos necessitadosSim, meus caros compatriotas: muita gente enriqueceu às custas de milhares de mortes agonizantes, principalmente de crianças, como foi dito. 

A face mais triste da raça humana se revela neste episódio...

Assim, uma questão emerge ao se lançar um olhar para estes fatos históricos: existiria a possibilidade de uma seca da magnitude da de 1887, com tão trágicas consequências, voltar a acontecer? Quanto tempo o sertanejo, hoje, poderia resistir? Porque não se houve mais falar em flagelados em uma gravíssima seca de 3 anos?

Enfim, o que mudou das secas passadas para as atuais? O que foi feito e o que deve ainda ser realizado?

Atualmente, a situação climatológica não é nem um pouco melhor. Desde 2012 a região vive, novamente, uma seca persistente, amenizada aqui e ali por chuvas localizadas. Já são mais de mil municípios em estado de emergência (2014).

Algumas conclusões podem ser feitas com base nos dados acima e em outros estudos. A primeira é que, indubitavelmente, qualquer país que deseja ser justo e se desenvolver não pode deixar prevalecer um ciclo "hidro-ilógico" em suas terras, ilustrado na figura abaixo:

Representação do ciclo hidro-ilógico, de autoria do climatólogo Donald Wihite
(Figura obtida no trabalho “Gestão adaptativa para um mundo em mudança – segurança hídrica e gestão de riscos” de Francisco de Assis Filho - UFC).
Outra conclusão inevitável é a de que o sertão nordestino e seu povo possuem, entre muitos valores, um alto grau de resiliência – termo este que define a capacidade de pessoas e sistemas de retornar a uma condição anterior ou de se adaptar, se necessário, a novas realidades, após a ocorrência de situações muito críticas (destrutivas e/ou disruptoras), como é o caso das secas prolongadas.

Contudo, um olhar sobre o caso clássico da região nordestina mostra que somente esse valor não basta. Levando-se em conta todas as potencialidades humanas – físicas, cognitivas e econômicas – vê-se que esta resiliência sempre teve um caráter de pura sobrevivência e, apesar de adaptado às duras condições do semiárido, o sertanejo pagou um alto preço para transpassar vivo a seca: a miséria, a fome, a desnutrição e o subdesenvolvimento físico/cognitivo/econômico correspondente, construindo um círculo vicioso que, junto com a seca natural, sempre impossibilitou que o sertanejo saísse no mesmo patamar desta condição natural negativa (seca prolongada). 

É a seca socioeconômica, é a resiliência "a menor".

Deste modo, no sistema que prevaleceu por muito tempo e que ainda se vê (em menor grau) – chamado sob determinadas condições de "indústria da seca" – a sobrevivência teve um alto custo para as potencialidades humanas, impedindo-as de florescer. Enfim, uma resiliência de maior qualidade deve ser construída, onde, a exemplo de outros lugares no mundo com problemas parecidos e que conseguiram contorná-los, não exista apenas o caráter mínimo de continuidade da vida, permitindo que o crescimento da economia e a efervescência cultural não se interrompam mesmo no caso de secas prolongadas.

Esta nova resiliência "a maior" é possível para a região e altamente salutar para todo o país, contribuindo para este com todas as riquezas que o crescimento de um povo forte e criativo pode trazer. Não basta ter o básico para sobreviver, devendo-se buscar também o crescimento econômico e de saber, e que assim novas riquezas possam ser criadas e movimentadas.

Para que esta nova realidade – já há algum tempo em curso – se consolide, estou convencido da necessidade de se utilizar todas as soluções de caráter estrutural propostas até hoje, para que o líquido da vida irrigue todas as potencialidades. São elas:

Revitalização - Retenção - Gestão - Transposição.

Gosto de chamá-las de a "quadra redentora– tema este que será melhor desenvolvido em outro artigo.

As três primeiras são unanimidades entre as vozes, técnicas ou não ,que clamam ações; já a última – secularmente controversa – nem tanto.
Uma questão pertinente: é necessária a quadra, ou apenas o trio inicial (isto é, revitalização, retenção e gestão) daria conta do recado?
Os fatos que a história registra, os exemplos de outros países, e o quadro cada vez mais seco que se pinta para o futuro devido à novidade terrível construída pelos humanos, denominada de AQUECIMENTO GLOBAL, indicam que não se pode furtar de nenhuma destas soluções.

Sim, a tendência é que, por todo o mundo, as coisas fiquem mais difíceis na cada vez mais importante questão das águas. Já existem previsões catastróficas, como a possibilidade de secas que durem décadas para determinadas regiões do planeta! Leia mais no artigo “Assessing the risk of persistent droughtusing climate model simulations and paleoclimate data” (AULT et al, 2014 - Journal of Climate). Infelizmente, é altamente preocupante o porvir que se avizinha.

Este é um bom motivo para que se realizem todas as ações já identificadas como necessárias, mesmo com contraposições. Não só: arrisco dizer que, neste caso, se deve exercer o pessimismo e pensar em quadros bem ruins num futuro de médio prazo, e que se vá verificando desde já a viabilidade de outras transposições e de altos investimentos na retenção em escala nacional. 

Neste futuro possível, ninguém poderá se considerar dono das águas e, em muitos lugares, levar de onde abunda para onde carece será a única alternativa.

Por outro lado, mesmo diante deste quadro, ao se estudar o assunto da transposição do Velho Chico, vê-se rapidamente que esta opinião não é compartilhada por boa parte dos estudiosos e interessados no tema, que se contrapõe à transposição. Durante a maior parte da minha revisão sobre o assunto, este fato me causava certa perplexidade, pois meus estudos me traziam razoável certeza – a meu ver embasada – da necessidade desta obra.

Penso que, agora, com o tema maturado, consegui minha resposta: para esta obra ser aceita por vozes qualificadas e honestas em sua opinião, os investimentos nas outras três ações clamadas jamais poderão ser preteridos – o que, indubitavelmente, é uma causa justa, inteiramente verdadeira e absolutamente necessária, inclusive para se ter algo para transpor.

É este, concluída a transposição, o tema central que deve ser discutido quando se falar no sertão nordestino. Não se deve deixar fugir da mesa esta pauta, devendo estar sempre na mente dos que comandam o país, sob pena – se não houver este direcionamento – de comprometer nosso futuro como nação próspera. 

Cabe a nós vestirmos o uniforme dos “lembradores/cobradores”.

Por outro lado e para se fazer justiça, deve ser dito que muita coisa já foi feita. O nordeste atual não é o Nordeste do século XIV – e nem mesmo das décadas passadas. A possibilidade da ocorrência de mortes em massa foi contornada pelas obras já realizadas, pelos programas assistenciais do governo, e pela logística de socorro durante os períodos de longa seca. Por exemplo, a retenção permitiu o armazenamento de, aproximadamente, 70 bilhões de litros de água, conseguidos através do maior processo de açudagem do mundo, e foi concluído o projeto “um milhão de cisternas” em agosto de 2014. A transposição se completa no final de 2015, segundo as previsões.

É água suficiente para muitos anos de seca, e expansão de uma agricultura similar ao do Vale do São Francisco, gerando riquezas e empregos.

O que se conseguiu não é pouco, devemos reconhecer – ou sendo justo mais uma vez: é surpreendente! Entusiasticamente escrevo que não existe mais fome aguda generalizada, saques, êxodo. Sim, as políticas de combate e convivência com a seca mudaram a realidade nordestina, e também o nível de resiliência que é exigida. 
Mesmo que, neste momento, o clima não seja favorável e a seca, de novo, mostre sua cara, o Brasil está conseguindo dar a base necessária para que o Nordeste saia deste círculo vicioso de resiliência mínima e construa uma outra, mais positiva e abrangente: a socioeconômica – uma transposição de um patamar a outro em que a que está sendo realizada no Velho Chico é apenas uma parte.

Contudo, repito: daqui para frente uma nova etapa deve ser buscada (ou tudo não vai por água abaixo): toda a sociedade deve pressionar por um investimento massivo na revitalização e na gestão. A primeira ação garantirá que as nascentes, os rios e açudes não sequem; a segunda que a água chegue a todos os que dela necessitam. A primeira representa o futuro; a segunda o presente.
Que esta seca, agora assombrando também o sudeste, sirva de lição, e não caíamos, novamente, no ciclo hidro-ilógico! 

Em conclusão: é necessário (e sempre foi) que o Brasil atue fortemente em uma estratégia coordenada de combate e convivência com a seca, e que as lições dos tempos passados e do tempo presente não sejam esquecidas. O Brasil inteiro deve cobrar esta ação de todas as esferas de poder, pois dela depende o futuro que todos queremos: de abundância e crescimento sustentável para todo o país e a totalidade de nosso povo.

É esta a grande vereda da luta do semiárido – e, novos tempos, do país inteiro (vide São Paulo) – que ninguém pode ficar indiferente.

Para a região nordestina, acredito que no dia em que esta condição ideal de segurança hídrica para a região expressar sua totalidade, além de construirmos um país mais resiliente, todos poderemos ver uma explosão das potencialidades daquele povo e de suas terras: a expressão libertadora de toda energia acumulada através de séculos de mera – quando não falha – sobrevivência.

EdiVal
11/10/2014